Arthur Koestler - O Zero e o Infinito

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012



 O Zero e o Infinito
"Trecho da contra-capa do livro"

Arthur Koestler
O Zero e o Infinito é um livro de grande significado e importância. Quando apareceu, em 1941, esclareceu muitos dos processos por crime de traição, realizados em Moscou, bem como dá o significado das abjetas confissões, surpreendentes para a inteligência ocidental. Hoje, sua leitura é ainda mais imperiosa para quantos queiram compreender o ênfase com que os comunistas subordinam os meios aos fins. Livro curto, é um milagre de compressão: transmite em forma dramática a essência de tôda a filosofia política marxista e as diferenças básicas entre duas atitudes em conflito, para uma das quais o individuo tem importância suprema, enquanto para outra o fim mais almejado é a sua completa subordinação ao Estado.

Contudo, seria de todo ilusório sugerir que se trata de uma novela didático como “A Cabana do Pai Tomás”. Embora seja o retrato de uma nação e de um sistema de vida, é principalmente o retrato de um indivíduo. Koestler fêz o seu protagonista, o velho bolchevique Rubachov, representar tôda a humanidade, e na sua morte todos estamos comprometidos. Em nenhum passo a moral é posta em relêvo, sempre que pode, evita as deduções. Não há apartes. Só a ironia proporciona a chave, O conflito moral se desenvolve dramaticamente nos pensamentos e nas lembranças do seu herói, nas inquirições e reinquirições diante dos magistrados policiais, e nas suas relações com os companheiros de prisão — particularmente nas conversas, por meio de percussão na parede da cela, com um russo branco, um tipo que ele não pode deixar de desprezar.

Exausto, desiludido, Rubachov se desprende de anos de pensamento disciplinado para chegar à compreensão do que aprendeu a chamar de “ficção gramatical”, o “eu”, que apenas se resume a mais um zero no sistema econômico. É uma das histórias clássicas de prisão, uma história de crime e castigo em vários níveis e com diversos subentendidos morais e filosóficos. Em último análise, é uma história da alma humana com novos símbolos para o Cristo e o Anticristo, e que persistentemente afirma a grandeza do ser humano.


DISPONÍVEL PARA EMPRÉSTIMO:
SETOR CIRCULANTE
KOESTLER, Arthur. O Zero e o Infinito. Rio de Janeiro: Globo, 1964. 191 p. (2 exs.)

George Orwell - 1984


 
1984: A profecia moderna de George Orwell

George Orwell
A segunda Guerra terminou! E o totalitarismo se expande e é levado até suas últimas consequências. Assim acontece no livro de George Orwell, ficção feita como aviso ao futuro sobre os males que o autor identificara na sua ideologia prévia, no momento de sua desilusão com o comunismo.

Lá no livro está o Partido Socialista Inglês, o super-partido que é a razão última da existência e agente coletivo do poder. Gramsci se sentiria em casa, pois o seu príncipe partidário e maquiavélico é facilmente reconhecível no Grande Irmão Orwelliano. Não se honra o país, a família, a religião; se vive e se honra somente o partido. O partido de 1984 é eterno, onisciente, onipotente e onipresente numa caricatura porca da Divindade renegada pelos homens. É o fechamento do ser humano à transcendência como Voegelin bem notara em sua época.

Lá está o duplipensar, caracterizado por aceitar contradições óbvias e acabar num emburrecimento completo, tornando-se incapaz de enxergar o óbvio perante o nariz. O Estado laico proíbe cristianismo nas escolas, mas ao mesmo tempo estimula o ensino das religiões africanas. O Estado não permite pena de morte, mas estimula a morte maciça de crianças no abortamento. O Estado prega a igualdade de direitos, mas favorece minorias declaradamente. O Estado prega a distribuição de renda, mas na verdade acumula poder num partido que engloba e afunda a noção de país soberano. O Estado proíbe drogas, mas está aliado a narcotraficantes terroristas de outros países.

Em 1984 encontramos o controle dos pensamentos, um politicamente correto de nossos dias levado às últimas consequências. Lá o indivíduo é uma ilusão, e somente o coletivo do partido existe e é eterno.

Lá está a novafala (ou novilíngua), com seus conceitos que proíbem pensamentos. E aqui temos as palavras que são imbuídas de preconceitos paralisantes e dementes. O reacionário, a direita, o católico, o crente, o religioso, o certinho, e tantas outras palavras que são muitas vezes assumidas ou ditas com um pedido encoberto e covarde de desculpas.

Lá está o subjetivismo moderno e a recusa de uma realidade objetiva, subjetivismo este que motiva nossa política e nossa iletrada classe letrada.

O'Brien, o terrível agente da Polícia das Idéias e carrasco do Ministério do Amor (onde se encontram os presos políticos), hoje é visto nos nossos intelectuais subjetivistas e niilistas, que apóiam partidos e desconstroem o passado e a realidade. Como Viktor Frankl dizia, a culpa dos campos de concentração está nos filósofos niilistas ganhadores de prêmios internacionais.

O passado no 1984 inclemente de Orwell é um brinquedo na mão do partido. Fatos são reescritos e a memória se perde num emaranhado de anseios políticos de dominação. Hoje nossos livros de história são porcamente escritos com propagandas descaradas que elogiam genocidas brutais e desumanos como Stalin e Mao.

Orwell captou bem o objetivo da elite pensante por trás das ideologias de massa: acumulação do poder, da força. Criar uma nova elite brutalmente poderosa. Controlar são só a economia, mas a mente e o coração.

O núcleo do partido deixou de ser composto por guerreiros e nobres, tornando-se uma elite de burocratas intelectuais. O resto do partido se enquadra no que Lênin chamava de inocentes úteis, passíveis de serem eliminados uma vez que se tornassem inconvenientes. O proletário continua proletário, mais pobre e mais oprimido, achando que melhorou, manobrado pelas idéias de seus governantes. Os inocentes úteis são os nossos intelectuais de segunda ordem, os professores e sociólogos que acham fazer um bem ao pregar suas ideologias ultrapassadas.

Ainda bem que Orwell não viveu para ver o Brasil de hoje! Ele morreria muito preocupado, percebendo que suas palavras foram jogadas ao vento.

E no fim, o herói morre aprendendo uma severa lição: quando finalmente o ser humano se dobrar de corpo e alma à tirania, seu prêmio irremediavelmente será a aniquilação...


DISPONÍVEL PARA EMPRÉSTIMO:
SETOR CIRCULANTE
ORWELL, George. 1984. São Paulo: Ed. Nacional, 1979. 277 p.
ORWELL, George. 1984. São Paulo: Ed. Nacional, 1984. 277 p.

LIVROS DO AUTOR NA CIRCULANTE (DISPONÍVEIS PARA EMPRÉSTIMO):
A caminho de Wigan. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. 225 p.
Dias na Birmânia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. 351 p.
A filha do reverendo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. 319 p. (2 exs.)
Mantenha o sistema. São Paulo: Hemus, c1936. 257 p.
Na sombra de 1984: um pouco de ar, por favor! São Paulo: Hemus, 1973. 233 p.
A Revolução dos Bichos. Porto Alegre: Globo, 1972. 135 p.
A Revolução dos Bichos. Porto Alegre: Globo, 1979. 135 p.
A Revolução dos Bichos. São Paulo: Abril Cultural, 1982. 137 p. ( 2 exs)
A Revolução dos Bichos. São Paulo: Globo, 1997. 98 p. (2 exs)
A Revolução dos Bichos. São Paulo: Globo, 2000. 1 v. p. (3 exs)

LIVROS DO AUTOR NO ACERVO (DISPONÍVEIS APENAS PARA CONSULTA):
Animal farm. New York: Signet classic, c1946. 128 p.

LIVROS DO AUTOR NA SEÇÃO BRAILLE:
A Revolução dos Bichos. São Paulo: Impr. Braille, 19--?. 1 v.p. (2 exs.)

Albert Camus - O Estrangeiro



Crime sem passado ou futuro
Por Pedro Zambarda, no Bola da Foca.

Albert Camus
O Sol, um revólver, a indiferença perante à perda da mãe e o subdesenvolvimento da Argélia. Em uma ficção breve, com frases secas e personagens enigmáticos, o escritor, jornalista e intelectual pied noir (argelino de origem francesa) Albert Camus marcou o século XX com o livro O Estrangeiro (nome original: L´Étranger), em 1942. Seu enredo aborda a vida do personagem Mersault, um homem que comete um cruel assassinato sem uma única justificativa. Essa história rendeu ao autor o Prêmio Nobel de Literatura de 1957, sendo o primeiro africano a receber tal reconhecimento.

Começando por um velório, que deveria supor um sentimento de angústia, somos apresentados ao protagonista que vê a situação de uma forma mais sistemática. "Tudo se passou, então, com tanta rapidez, certeza e naturalidade, que já não me lembro mais de nada" exclama Mersault, sem nenhuma forte afirmação de lamento ou perda. No desenvolvimento da história, ele possui uma relação supostamente sentimental com a namorada Marie, mas a descrição de seus encontros revela um interesse mais carnal do protagonista.

Com uma narrativa que parece retirar os fatos do cotidiano, como uma espécie de diário, a trama segue até uma praia argelina onde Mersault, Marie e os amigos Raymond e Masson são abordados por um grupo de árabes. O confronto na praia termina com o protagonista disparando cinco tiros de seu revólver contra uma vítima desarmada, sem ter aparentemente um motivo plausível para tal reação. Um tiro derruba o suposto inimigo e mais quatro são disparados contra um corpo inerte. "Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz" narra Mersault, fazendo uma descrição que transforma o Sol, o calor e seu ato horrendo em um único retrato, com um significado que não está descrito nos tribunais que vão julgá-lo.

Essa mudança central no roteiro, que se torna fonte de todas as situações na prisão de Mersault, mostram que o personagem não se arrepende do que fez, mesmo diante da sociedade e da cobrança de uma ética em sua recuperação. E ele ainda teoriza sobre a vida na prisão, tendo um raciocínio totalmente fora da normalidade: "compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldade passar cem anos numa prisão".

O que Mersault revela, sendo uma criação distinta de Albert Camus, é que ele é um indivíduo que vive o chamado "estado de absurdo", explorado tanto na filosofia como nas artes, especialmente a dramaturgia. A pessoa absurda não está ligada ao passado histórico e cultural e, por isso, é livre de qualquer lógica e pode cometer qualquer ato impensado. Quando não há ligação com o futuro, essa pessoa também deixa de temer possíveis consequências de seus atos.

Do crime aos tribunais, Camus mostra nesse romance o retrato de seu tempo: ele foi um jornalista engajado na época da Segunda Guerra Mundial e das bombas atômicas. Mersault é a encarnação das aberrações que surgiram no século XX, fruto de um pensamento que rompeu com as tradições da modernidade, apesar do absurdo não ser um tema exclusivo de determino período histórico.

Pode-se condenar Mersault por seu assassinato, mas sua mente não sente culpa ou remorso. Ao transferir seu ponto de vista ao do personagem, porém, não podemos mais recriminá-lo, especialmente porque ele não acredita na justiça dos homens. "Durante as falas do promotor e do meu advogado, posso dizer que se falou muito de mim, e talvez até mais de mim do que do meu crime. Eram, aliás, assim tão diferentes os discursos?"

Um bom livro para ler em uma única tarde, tendo pouco mais do que 120 páginas em média, com frases e parágrafos curtos e diretos, embora o personagem seja fruto de análise profunda para muitos outros processos, situações ou mesmo épocas distintas.


DISPONÍVEL PARA EMPRÉSTIMO:
SETOR CIRCULANTE
CAMUS, Albert. O Estrangeiro. Rio de Janeiro: Record, c1957. 122 p. (2 ex.)
CAMUS, Albert. O Estrangeiro. São Paulo: Abril Cultural, 1972. 154 p. (3 exs.)
CAMUS, Albert. O Estrangeiro. Rio de Janeiro: Record, 1995. 122 p.

LIVROS DO AUTOR NA CIRCULANTE (DISPONÍVEIS PARA EMPRÉSTIMO):
Estado de sítio; O estrangeiro. São Paulo: Abril Cultural, 1982. 298 p. (5 exs.)
O exílio e o reino. Rio de Janeiro: Record, 1997. 174 p. (2 exs.)
A morte feliz. Rio de Janeiro: Record, 1971. 147 p.
Núpcias, o verão. Rio de Janeiro: 1979. 143 p.
A queda. Rio de Janeiro: Record, c1956. 114 p.

LIVROS DO AUTOR NO ACERVO (DISPONÍVEIS APENAS PARA CONSULTA):
Calígula: peça em quatro atos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963. 135 p.
O mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1989. 162 p.
A morte feliz. Rio de Janeiro: Record, 1971. 147 p. 
Núpcias, o verão. Rio de Janeiro: 1979. 143 p.
A peste.  Rio de Janeiro: Opera Mundi, 1973. 283 p. (2 exs.)

Nikos Kazantzakis - Zorba, o grego

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011



Zorba, o Grego
Por Paulo Roberto Laubé, o Cabelo, do site Literatura Cotidiana.

Nikos Kazantzakis
Dois homens e uma amizade. Um vive e escreve o seu próprio destino, o outro luta para não se deixar empurrar pelo próprio destino. Entre eles: a liberdade. Estas duas experiências muito bem exploradas pelo autor permeiam todo o livro, que retrata uma jornada de dicotômicas almas que se encontram e se separam durante a vida.

Zorba, o Grego é a obra mais conhecida de Nikos Kazantzakis e data de 1942, quando a Grécia lutava contra a ocupação nazista. Georges Zorba era um operário que o escritor conhecera ao acaso e com quem, em 1917, tentara explorar uma mina de carvão. Após 25 anos, a convite do mesmo, repetiu a experiência, que foi curta e desastrosa, mas inesquecível, sobretudo devido à personalidade de seu companheiro Zorba. Ele era a encarnação do homem livre, do autêntico aventureiro, amante da vida intensa, de espírito límpido e isento de preconceitos, inspirando a personagem Alexis Zorba, o grego.

Este livro, sem dúvida, carrega alguns traços autobiográficos observados na caracterização do patrão, narrador personagem, o “mastigador de papel”, e o próprio Alexis Zorba, na medida em que representam uma relação de ego e alterego da personalidade do autor. O patrão polido e ponderado, apesar de toda a bagagem cultural adquirida nos livros, passa a aprender e se inspirar nas lições de Zorba, o qual assimilou e interpretou as próprias experiências de vida sempre norteadas pelo impulso.

A partir disso constrói-se uma bela e consistente amizade, muito embora ambos configurem-se quase opostos. Em comum fica evidente nas personagens o aspecto do machismo, tanto no autocontrole das emoções por parte do narrador, que reprime seus sentimentos, quanto na concepção de mulher tida por Zorba. Ilustra-se o exasperado machismo na explicação de Tio Anagnosti, influente cidadão da aldeia cretense onde se passa a história, a respeito de seu nato problema de audição: “E isso não é nada - disse ele - pois ela podia ter me feito cego ou débil mental, ou corcunda, ou então - que Deus me guarde - ela podia ter me feito mulher. A surdez não é nada, e eu me prosterno diante das graças da Virgem Santíssima!”

Em busca de novo ambiente, paisagens e explicações para sua busca interior, Kazantzakis passou quase toda sua vida em constantes peregrinações, assim como a sua personagem Zorba. Em 1923 na Alemanha, realizou uma excursão pelos lugares freqüentados por Nietzsche, cujo livro Assim Falou Zaratustra acabara de ler e que exerceu profunda influência sobre seu espírito. Na mesma época, em Berlim, conviveu com intelectuais ligados ao marxismo e passou a abraçar a idéia do socialismo, marcando sua vida. Em Zorba, o Grego nota-se a veia socialista do autor em uma oração do narrador, por exemplo: “E eu fazia projetos românticos - se a extração de linhita caminhasse bem - de organizar uma comunidade onde todos trabalharíamos, onde tudo seria comum, onde comeríamos todos a mesma comida e vestiríamos a mesma roupa, como irmãos. Criava dentro de mim uma nova ordem religiosa, gente de uma nova vida…”

Sua vasta obra, que retrata em parte as condições de vida da população grega, bem como a angústia do destino de sua própria vida, está permeada ora de misticismo, ora de forte realismo, acompanhada também de acentuado pessimismo.


DISPONÍVEL PARA EMPRÉSTIMO:
SETOR CIRCULANTE
1 EXEMPLAR:
KAZANTZAKIS, Nikos. Zorba, o grego. São Paulo: Abril Cultural, 1974. 369 p.

LIVROS DO AUTOR NA CIRCULANTE (DISPONÍVEIS PARA EMPRÉSTIMO):
Os irmãos inimigos. São Paulo: Círculo do Livro, 1991. 243 p.
O Pobre de Deus. São Paulo: Círculo do Livro, 1989. 336 p. (2 exs)
Testamento para el grego. Rio de Janeiro: Artenova, 1975. 356 p.

LIVROS DO AUTOR NO ACERVO (DISPONÍVEIS APENAS PARA CONSULTA):
Zorba, o grego. São Paulo: Abril Culturaç, 1983. 367 p.
Ascese: (salvadores dei). Rio de Janeiro: Record, 1959. 120 p. (2 exs)
O Cristo recrucificado. São Paulo: Abril Cultural, 1971. 519 p. (5 exs)

Garcia Marquez - Cem Anos de Solidão

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011



Resenha de Cem anos de Solidão
Por Diego Jordan, do Nerds Somos Nozes.

Garcia Marquez
A história dos Buendia é narrada durante gerações, com filhos de sangue e adotados, que se foram com tiros na cabeça ou subindo aos céus, em um paredão por serem revolucionários ou fazendo xixi ao pé de uma árvore. Absurdos fantásticos e realismos coexistem no passar dos anos dessa família e do vilarejo onde moram, Macondo.

É exatamente em um emaranhado de acontecimentos improváveis que se tece um dos maiores e mais importantes - se não o maior e mais importante - romance latino do século XX (abro aqui propositadamente um parêntese para esboçar minha opinião sincera: ainda não li até hoje, um livro escrito por homem ou mulher das Américas melhor que este, para mim então ele é o melhor dentre os melhores). Seu nome? Cem Anos de Solidão.

Se você é uma pessoa que lê com um mínimo de freqüência e vez por outra se detêm lendo algo sobre literatura, já deve ter escutado falar deste livro. Se você é um ser que lê muito e não perde seu tempo de leitura APENAS com vampiros purpurinados ou romances água-com-açúcar, já deve tê-lo lido ou o mesmo encontra-se na sua lista.

Em um vilarejo afastado de qualquer civilização, no princípio visitado apenas por ciganos em seus tapetes voadores, e mais tarde por companhias bananeiras norte-americanas, se desenvolve uma pequena população. Macondo é o nome desse vilarejo, e seu principal fundador é José Arcádio Buendía, marido de Úrsula Iguaram, mãe do Coronel Aureliano Buendía, pai de dezessete filhos de dezessete diferentes mulheres. Estes mesmos filhos foram mortos um a um, justamente por serem filhos do coronel. Mas o coronel não foi o único filho de José Arcádio e Úrsula. Eles tiveram outros, que tiveram mais filhos, e esses filhos, assim como os pais e os avôs geraram mais filhos, e a história de cada um desses filhos é descrita e narrada até sua morte, ou até a sua estádia na terra, pois um deles sobe ao céu como um Anjo, talvez por ser a criatura mais racional que já existiu.

Cada um desses filhos tem sua partida descrita de uma maneira muito distinta uma da outra. Assim como Remédios, a Bela subiu ao céu; também tivemos o próprio coronel que morreu fazendo xixi ao pé da arvore onde seu pai outrora fora acorrentado por ficar louco, e onde literalmente vegetou até a morte. Tivemos ainda aquele que foi levado ao paredão por ser revolucionário, fim semelhante ao que foi dizimado em praça publica juntamente com outros manifestantes e dele ninguém nunca soube o verdadeiro fim, apenas o leitor. Uma das mortes que mais gostei, ou pelo menos a que mais me marcou, foi a de José Arcadio, o filho, que após tomar as terras dos vizinhos foi alvejado com um tiro de espingarda na testa e o sangue que verteu do buraco feito pela bala escorreu as ruas de Macondo, chegando à casa dos pais e anunciando a sua mãe, que pressentia, a fúnebre notícia.

Embora eu tenha me detido falando um pouco da morte dos personagens não é apenas de morte que fala o livro. Entre a narrativa serão percebidos temas como política, amor, família, amizade, misticismo, folclore e principalmente solidão. O titulo do livro não é em vão, a própria condição de Macondo, um povoado isolado e sem vias, tanto de saída quanto de acesso conhecidas ao mundo exterior (isso não quer dizer que ninguém tenha saído ou chegado a Macondo), já o fazem um lugar solitário por si só.

Porém, ainda mais Solitário que Macondo é cada um dos Buendía. A família parece sofrer de um problema crônico de solidão, e isso não ocorre pelo fato da pessoa estar sozinha fisicamente. Na realidade isso é até um tanto impossível para uma família tão grande. Poucos, ou apenas um personagem é realmente isolado, os demais sofrem de uma solidão intima, de uma solidão que acompanha cada ser humano, principalmente aqueles que são mais inquietos, que tentam sempre chegar a algum lugar e jamais chegam à lugar algum. Que querem mais por achar que a solução para o vazio está no volume material, ou naqueles que esbanjam todo este falado volume na tentativa de saber se são as farras, as festas e as bebedeiras que irão arrastá-los para fora do vazio em que se encontram.

Por fim, Garcia Marquez nos fala, nas próprias palavras do autor, das maravilhas da solidão compartilhada, de compartilhar o isolamento com alguém, mas não qualquer alguém, é o alguém com quem seu coração se isola e deixa-se solitário propositadamente, para esquecer-se do mundo, para ser egoísta. No fim, o livro fala tanto da solidão quanto de amor e família.


DISPONÍVEL PARA EMPRÉSTIMO
SETOR CIRCULANTE
8 EXEMPLARES:

Cem anos de solidão. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967. 364 p.
Cem anos de solidão. Rio de Janeiro: Record, 1967. 394 p. (3 ex.)
Cem anos de solidão. Rio de Janeiro: Record, 1995. 394 p.
Cem anos de solidão. Rio de Janeiro: Record, 1996. 394 p. (2 ex.)
Cem anos de solidão. Rio de Janeiro: Record, 2003. 394 p.

LIVROS DO AUTOR NA CIRCULANTE (DISPONÍVEIS PARA EMPRÉSTIMO):
O amor nos tempos do cólera. Rio de Janeiro: Record, ed. 1985 (6 exs.), 1995 (2 exs.) e 2005. Média: 429 pág.
Chronicle of a death foretold. New York: Ballatine Books, 1984. 143 pág.
Crônica de uma morte anunciada. Rio de Janeiro: Record, ed. 1981 (2 exs.) e 2000 (2 exs.). Média: 177 pág.
Do amor e outros demônios. Rio de Janeiro: Record, ed. 1994 (3 exs.), 1996 e 2000. Média: 221 pág.
Doze contos peregrinos. Rio de Janeiro: Record, 1993 (2 exs.). 252 pág.
A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada. Rio de Janeiro: 1972. 158 pág.
A má hora: o veneno da madrugada. Rio de Janeiro: Record, 1974. 229 pág. (2 exs.)

LIVROS DO AUTOR NO ACERVO (DISPONÍVEIS APENAS PARA CONSULTA):
A aventura de Miguel Littin, clandestino no Chile (reportagem). Rio de Janeiro: Record, 1986. 127 pág.
O general em seu labirinto. Rio de Janeiro: Record, 1989. 281 pág.
A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada. Rio de Janeiro: 1972. 158 pág.

Herman Hesse - O Lobo da Estepe


 
Só para loucos
BERNARDO CARVALHO (colunista da Folha)


Hermann Hesse, Nobel de 1956.
Em meados dos anos 60, "O Lobo da Estepe" (1927), de Hermann Hesse (1877-1962), começou a ser lido como uma espécie de "O Pequeno Príncipe" por toda uma geração influenciada primeiro pela psicanálise e em seguida pelos ecos do movimento hippie.

Hesse virou moda. Seus livros foram devorados com um espírito de culto. Se você passou a infância naqueles anos psicodélicos, deve ter tropeçado pelo menos uma vez em algum dos romances do autor (Prêmio Nobel de 46), esquecidos na borda de uma piscina ou ao lado de uma cadeira de praia e discutidos pelos adultos como alegorias da procura espiritual do eu pelo viés do inconsciente psicanalítico ("Demian") ou do misticismo orientalista ("Sidarta").

É muito provável que a "literatura de mensagem" de Hesse, que tanto marcou os leitores nos anos 60/70, também esteja ironicamente na origem dos livros de Paulo Coelho, em seu aspecto massificado de "pérolas de sabedoria".

Ironicamente, porque, ao contrário do que pode parecer, "O Lobo da Estepe" não é um romance fácil. Ainda mais num mercado que é o avesso dos valores que o livro propõe, um mundo em que a idéia de autoconhecimento foi invertida e transformada em impostura e lugar-comum, vulgarizada como estratégia de marketing e vendas.

"O que chamamos cultura, o que chamamos espírito, alma, o que temos por belo, formoso e santo, seria simplesmente um fantasma, já morto há muito, e considerado vivo e verdadeiro só por meia dúzia de loucos como nós?", pergunta o protagonista.

Com a distância do tempo, a atual reedição (a 26ª) de "O Lobo da Estepe" prova que, a despeito de seu lado "filosófico", que o tornava aparentemente mais acessível nos anos 60, o romance de Hesse é, do ponto de vista literário, extremamente complexo, imaginativo e inovador para a época em que foi escrito. Um texto que oscila entre o simbolismo e o surrealismo, criando um mundo onírico que lembra os pesadelos das novelas de Schnitzler e dos contos de Hoffmann.

A misantropia, o solipsismo e a inadequação de seu protagonista ao mundo, descontadas as eventuais referências à ânsia de um "encontro com Deus", também estão de alguma forma na origem dos personagens de Thomas Bernhard: "O Lobo da Estepe, o sem pátria e solitário odiador do mundo burguês. (...) Não se devem considerar suicidas apenas aqueles que se matam. (...) Essa classe de homens se caracteriza na trajetória de seu destino porque para eles o suicídio é a forma de morte mais verossímil (...). Não estou satisfeito em ser feliz. (...) A infelicidade de que necessito (...) me permitiria sofrer com ânsia e morrer com prazer. (...) Anseio por uma dor que me prepare e me faça desejar a morte", diz o narrador do romance de Hesse.

Bernhard chegou a declarar numa entrevista à TV austríaca: "Quando descrevo este gênero de situações centrífugas encaminhadas na direção do suicídio, trata-se certamente da descrição de estados em que eu próprio me encontro e em que, por outro lado, talvez me sinta bem enquanto escrevo, justamente porque não me suicidei, porque escapei disso".

Assim também, ao final de "O Lobo da Estepe", o protagonista entra num teatro mágico, que lhe abre, como uma droga, as portas da percepção para o interior do seu inconsciente e se depara com um letreiro que lembra bastante a literatura de Bernhard: "Delicioso suicídio! Você se arrebenta de rir!".

Todo o problema do personagem do livro de Hesse é um permanente mal-estar cuja fonte é a inadequação do seu espírito à sociedade, à massa, à média e à vulgarização burguesa da vida e dos valores. É por isso que ele se define como "lobo da estepe".

Aos 48 anos, aluga um quarto mobiliado na casa de uma senhora onde passa a viver isolado do mundo. É um intelectual misantropo. Suas andanças são ao mesmo tempo um mergulho simbólico dentro de si mesmo e uma redescoberta sensorial dos prazeres físicos.

Quando sai para a rua, as coisas se sucedem como se ele estivesse sonhando ou alucinando e como se tudo dissesse respeito a si mesmo. Um mundo bem mais imaginário e simbólico do que real.

A certa altura, recebe de um propagandista ambulante um panfleto que é a espantosa análise de sua própria personalidade. Encontra uma mulher que é, ao mesmo tempo, a lembrança de um amigo de infância e seu duplo. É levado a um teatro mágico, "só para loucos", cujo efeito é semelhante ao de uma droga de autoconhecimento.

A duplicação de si se estende por todo o romance e culmina no jogo de espelhos desse teatro mágico, em que o protagonista descobre que o eu é múltiplo. O autor se duplica em narrador e este, em elementos de sua própria narrativa: "Assim como a loucura, em seu mais alto sentido, é o princípio de toda sabedoria, assim a esquizofrenia é o princípio de toda arte, de toda fantasia". Ao que só lhe resta, como em Thomas Bernhard, "viver e aprender a rir".


DISPONÍVEL PARA EMPRÉSTIMO
SETOR CIRCULANTE

O Lôbo da estepe. Rio de Janeiro: Record, 1955. 244p. (2 exs.)
O Lôbo da estepe. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. 200 p.
O Lôbo da estepe. Rio de Janeiro: Record, 1995. 224 p.
Steppenwolf. Lodon: Penguin Books, 1965. 253 p.

OUTROS LIVROS DO AUTOR DISPONÍVEIS PARA EMPRÉSTIMO:
Caminhada (romance). Rio de Janeiro: Record, 1920. 114 p. 2 exemplares
Contos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. 131 p. 2 exemplares.
Demian: história da juventude de Emil Sinclair (romance). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976. 6 exemplares
Demian. Rio de Janeiro: Record, s/d. 187 p. 3 exemplares.
Demian. Rio de Janeiro: Record, 2000. 187 p. 2 exemplares.
Este lado da vida (romance). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1954. 284 p.
Este lado da vida. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971. 294 p.
Gertrud (romance). Rio de Janeiro: Record, 1995. 166 p. 2 exemplares
Gertrud. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972. 175 p. 2 exemplares
Knup (romance). Rio de Janeiro: Record, c1949. 129 p. 4 exemplares
Knup: três episódios de sua vida. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971. 130 p.
Knup: três episódios de sua vida. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973. 130 p. 3 exemplares.
O livro das fábulas (romance). Rio de Janeiro: Record, c1954. 233 p. 2 exemplares
Narciso e Goldmund (romance). São Paulo: Brasiliense, 1969. 247 p.
Narciso e Goldmund. São Paulo: Brasiliense, 1970. 247 p.
Narciso e Goldmund. São Paulo: Brasiliense, 1972. 247 p. 2 exemplares
Narciso e Goldmund. Rio de Janeiro: Record, c1930. 247 p.
Para ler e guardar. Rio de Janeiro: Record, 1975. 178 p.

Para ler e pensar(coletânea de pensamentos de livros e cartas). Rio de Janeiro: Record, 1971. 214 p. 6 exemplares.
Pequeno mundo: contos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970. 261 p.
Rosshalde (romance). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971. 184 p.
Rosshalde (romance). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972. 184 p.
Sidarta (romance). Rio de Janeiro: Opera Mundi, 1970. 196 p. 5 exemplares
Sobre a guerra e a paz (ensaio) - 1 exemplar
Transformações (poesias) - 1 exemplar
O último verão de Klingsor (romance) - 1 exemplar
Viagens ao oriente (romance) - 1 exemplar

PARA CONSULTA (não disponível para empréstimo):
Minha fé (pensamentos). Rio de Janeiro: Record, 1971. 128 p.
Obstinação (biográfico). Rio de Janeiro: Record, 1972. 222  p.
Pequenas alegrias. Rio de Janeiro: Record, c1977. 317 p
Sonho de uma flauta e outros contos - 1 exemplar
Vivências: trechos escolhidos - 1 exemplar

Ernesto Sábato - O Túnel

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

E então sentia que o meu destino era infinitamente mais solitário do que eu havia imaginado. 
(O Túnel, Ernesto Sábato)


Sinopse escrita por Simão Fonseca, do blog ContraCultura Aplicada:

Ernesto Sábato
Visivelmente emocionado e emerso num choro de alegria, Ernesto Sabato abraçou o amigo José Saramago aquando da distinção de honra no III Congreso Internacional da Língua Espanhola em 2004. O escritor, ensaísta e pintor nasceu em 1911 e morreu este ano - a escassos meses de completar um século de vida - vítima de bronquite. Consigo deixou um legado de crónicas, quadros e uma profunda reflexão sobre o valor do Homem e a sua importância enquanto ser consciente e pensador. Entre as suas maiores obras encontra-se este túnel.

O Túnel aborda a vida do pintor famoso, de Buenos Aires, Juan Pablo Castel e toda a sua solidão e crise existencialista. Narrado sempre na primeira pessoa, o livro abre com a confissão de um crime de Castel, que se dirige ao leitor a contar-lhe que assassinou uma mulher. Após pintar um quadro onde figura uma casa à beira-mar e uma mulher espreitando à janela, Castel exibe-o numa casa de artes onde acaba por se aperceber que, para além das habituais figuras que povoam aqueles ambientes - que ele próprio despreza -, se encontra presente uma jovem bela que observa o quadro e o inquieta. A partir daqui, o nosso personagem fica obcecado por esta mulher e decide ir à procura da mesma na baixa da cidade; assim que a vê, o coração de Castel fala mais alto que o seu raciocínio e interpela María Iribarne e confessa-lhe, desesperado, que a deseja ter para si mesmo.

Como em muitos romances existencialistas, as personagens apresentam-se envoltas num clima de depressão profunda e têm dificuldades em exteriorizar os seus sentimentos e, acima de tudo, compreender o que os rodeia, desprezando-os quase sempre. Castel, obviamente perturbado e constantemente a reflectir sobre a sua condição humana, vive no seu mundo, no seu túnel, até que começa a sair e a ter relações com María, acreditando que ela é só sua e que mais ninguém a pode ter. Tal como o seu quadro - um dos pontos mais simbólicos da obra – María encontra-se num quarto que não é o de Castel; este quarto pode ser interpretado como um retiro que o próprio pintor procura e está ligado à casa de praia que a sua amante possui. Mergulhado em constantes desabafos anti-humanidade, Castel julga ver em María a saída do seu túnel, a sua salvação e esperança.

O Túnel é uma obra de fácil leitura e ao mesmo tempo de lenta digestão. A escrita de Sabato é extremamente densa do ponto de vista psicológico e desoladora em termos humanos, criando personagens que buscam a felicidade quando já há muito que estão condenadas à dor que a solidão causa. A par deste romance, Sabato – o “irmão mais velho” de José Saramago, escreveu mais dois de forte impacto no mundo hispânico e europeu, apesar de ter dedicado grande parte da sua vida à pintura e a ensaios.  

DISPONÍVEL PARA EMPRÉSTIMO
SETOR CIRCULANTE
3 EXEMPLARES
ERNESTO SÁBATO. O Túnel. São Paulo: Círculo do Livro, 19--. 124 p. (2 exs)
ERNESTO SÁBATO. O Túnel. Rio de Janeiro: F. Chaves, 1981. 121 p.

OBRAS DO AUTOR NA CIRCULANTE (DISPONÍVEIS PARA EMPRÉSIMO):
Abadon, o Exterminador (romance). Rio de Janeiro: F. Alves, 1981. 285 p.